Brics precisam articular alternativa ao neoliberalismo

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Especialistas da África do Sul, China, Brasil e Rússia concordam que a integração dos países do Brics está apenas no início, com um longo caminho pela frente, mas que é promissor e pode possibilitar um desenvolvimento econômico com distribuição de renda, contra o neoliberalismo criado pelos europeus e americanos no século passado.

Eles têm esperança que a 6ª Cúpula dos Brics, que será realizada em Fortaleza (CE) em julho, fortaleça questões importantes como a criação do Banco e de um fundo de investimentos em comum, essenciais para que a necessária integração seja efetivada. Ainda falta, porém, planejamento ao Brasil e à África do Sul, como foi implantado na China e na Índia nas últimas décadas.

"O Colapso do paradigma neoliberal em economia e as perspectivas econômicas dos Brics no contexto mundial" foi o tema central da primeira mesa redonda da Conferência Brics no Século 21, que contou a participação de especialistas do Brasil, da Índia, da China, da África do Sul e da Rússia. O consenso é que não basta crescer de qualquer forma, mas com distribuição de renda, em uma crítica ao consenso de Washington - conjunto de medidas formulado em novembro de 1989, visando ao desenvolvimento e à ampliação do neoliberalismo. Dércio Garcia Munhoz, economista, professor titular do Departamento de Economia da UnB até 1996, ex-presidente do Conselho Federal de Economia e do Conselho Nacional da Previdência Social, criticou a grande dependência do Brasil de capital financeiro. O neoliberalismo como foi implantado, adverte, é um inimigo que tem implicações nas decisões políticas. O neoliberalismo não gerou estabilidade nem crescimento, gerou uma grande dependência dos países periféricos, como um grande tsunami, que não deixou espaço para contestação, disse o economista.

" O Brasil não tem capacidade de planejamento", alerta Décio, comentário reforçado pelo especialista indiano, Santosh Mehrotra, que também indicou o planejamento recente, mas ainda pouco eficaz, da África do Sul. "Não apenas o Brasil, mas, na América Latina, todos os países perderam a habilidade de planejamento estratégico", alega Santosh.

Santosh Mehrotra é um indiano PHD em Economia pela Universidade de Cambridge e Conselheiro do Governo da Índia. Ele alerta que, quando a experiência do Brics é analisada, percebe-se que falta um foco em quatro aspectos – no comércio, no investimento, no campo financeiro e na cooperação. A China, por exemplo, é o principal parceiro comercial para todos os outros integrantes do grupo, mas o contrário não acontece. Santosh reconhece que há um comércio entre a China e a Índia, mas que o desequilíbrio ainda é grande.

Em relação ao fator investimento, numa economia global e integrada, grande quantidade do comércio se dá pelo investimento em infraestrutura, mas o investimento entre os países ainda "não é exatamente grande". Neste aspecto, "não existe integração".

A questão financeira, contudo, parece estar melhor encaminhada, com a criação do Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics, que pode ser anunciado oficialmente formalmente durante a próxima reunião do grupo de países, e o fundo de reservas que está sendo planejado. Os países estão apenas começando, todavia, a traçar um caminho para que a real dimensão de sua importância possa ser criada. Sobre a cooperação entre os Estados, destacou avanços principalmente na área farmacêutica e os mecanismos de compras públicas que os quatro países possuem.

"Falta algo. Não existe tanto comércio, temos pouco investimento entre os países. (...) Nossos países precisam de investimento massivo em infraestrutura", apontou, indicando que o crescimento médio de 8,4% da Índia de 2004 a 2011 foi resultado do investimento em infraestrutura, que gerou empregos, expansão do consumo e declínio da pobreza.

O não alinhamento dos países, porém, possibilita um grande potencial de articulação para desenvolvimento, como indica Rasigan Maharajh, sul-africano doutor em Filosofia pela Universidade de Lund, da Suécia, e economista especializado em inovação, que foi Coordenador Nacional de Ciência e Tecnologia, no Projeto de Transição Política durante o primeiro governo democrático da África do Sul. Ele aponta que uma integração entre os países não se trata de um avant-garde de uma luta anti-imperialista.

"É importante irmos além, falar dos Brics como uma entidade coletiva. O capitalismo de mercado, na ausência de uma redistribuição de renda, produz oligarquias antidemocráticas, com medidas anticoncorrência e favorável a desigualdades sociais." Daí, então, a importância de uma articulação dos Brics para criar um novo plano de desenvolvimento, que favoreça uma distribuição de renda.

Maharajh reforça que não basta uma união para facilitar o crescimento do PIB dos países apenas, é preciso questionar se os Brics não oferecem a chance de quebrar paradigmas e criar um mundo melhor, para um desenvolvimento sustentável e mais duradouro. "Se ficarmos só no clássico não vamos mudar a economia." As soluções, no entanto, não estão nos livros, precisam ser buscadas, e com participação da sociedade, alertou.

Vladimir M. Davydov, diretor do Instituto de América Latina, membro correspondente da Academia de Ciências da Rússia, disse que não se pode perder tempo em implantar uma real integração entre os países, como um mecanismo de colaboração econômica. Ele aponta para a necessidade de preparação para um nova crise que pode surgir, e que pode fazer os países pagarem muito caro. "O Brics não é capaz de promover a revolução, mas de elaborar mecanismos de prevenção contra a crise coletiva. (...) Não podemos ser lentos nesses esforços. Falta energia aos líderes dos Brics."

Fonte: Jornal do Brasil

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